Caros Traders
Histórica. Esse é o único adjetivo que podemos atribuir a uma semana na qual um dos mais antigos bancos de investimentos entrou em concordata e inúmeras outras instituições financeiras de todo o planeta viram na falência a próxima e última etapa a ser cumprida em seus ciclos de existência. Histórica por ter sido a semana na qual o mundo pôde acompanhar de perto e entender perfeitamente todas as razões que levaram ao colapso do mercado financeiro global. Semana que irá permanecer na memória de muitos pelas enormes oscilações que fizeram com que diversos ativos alcançassem níveis não atingidos há anos, representando indesejáveis prejuízos para alguns e lucros jamais vistos por outros.
“Não há espaço suficiente na primeira página dos jornais do país para todas as notícias de hoje”. Essa foi a declaração dada na segunda-feira por economistas da consultoria First Trust Advisors. Isso porque nem o mais pessimista poderia prever que o início da última semana traria tantas más notícias para a economia mundial. Pedido de concordata pelo Lehman Brothers, compra da Merrill Lynch pelo Bank of America e socorro de US$ 20 bilhões pelo Fed à seguradora norte-americana AIG foram os acontecimentos que transpareceram todos os problemas de falta de liquidez do mercado e levaram as bolsas de todo o mundo a quedas históricas. Dow Jones caiu 4,42%, Nasdaq recuou 3,60%, S&P 500 fechou em baixa de 4,71% e o Ibovespa desabou 7,59%.
Quanto ao Lehman Brothers foi marcante observar seus funcionários deixando a instituição com caixas e mais caixas de documentos pessoais e um semblante absolutamente incrédulo frente a tudo o que estava acontecendo. No domingo, o banco de investimentos norte-americano com 158 anos de existência viu na desistência da compra de seus ativos pelo Barclays e Bank of America o fim do último suspiro. A instituição já vinha procurando compradores desde a semana passada, quando o Korea Development Bank também decidiu pela sua não aquisição. E diferente da postura adotada há alguns dias, quando o Fed estatizou as agências hipotecárias Fannie Mae e Fredie Mac, a não intervenção do banco central norte-americano no sentido de conceder maiores garantias aos prováveis compradores foi o principal fator que justificou a inclusão do Lehman Brothers no capítulo 11 do código de falência dos EUA. Dessa forma, o banco de investimentos continuará operando e terá uma última oportunidade de tornar-se solvente sem assistir a liquidação de todos os seus ativos. Os papéis da instituição que valiam US$ 65,44 no início do ano fecharam o pregão de segunda-feira a US$ 0,21.
Sorte diferente teve a Merrill Lynch, vendida por US$ 50 bilhões ao Bank of America. Já a AIG, uma das maiores seguradoras do mundo, também vinha caminhando por rumo igual ao traçado pelo Lehman Brothers. Embora o Fed viesse coordenando uma ação junto ao JP Morgan e Goldman Sachs, outros dois gigantes do mercado financeiro, no sentido de injetar um total de US$ 125 bilhões na AIG, as perspectivas eram de totais incertezas. Isso porque o receio de que um efeito dominó derrubasse outras instituições do mercado financeiro, alastrando a crise por toda a economia, vinha obtendo traços cada vez mais reais. Mesmo assim, a seguradora obteve autorização do Fed para levantar cerca de US$ 20 bilhões de suas filiais a fim de reduzir no curtíssimo prazo os efeitos da falta de liquidez.
Diante de todas essas ameaças, os países emergentes foram os mais prejudicados. No Brasil, a segunda-feira marcou, além da queda do Ibovespa, a elevação do risco país para 309 pontos e a valorização do dólar em 1,74%, fechando o dia cotado a R$ 1,81. Tais dados demonstraram a situação de total vulnerabilidade do mercado nacional às crises mundiais. Isso porque, mesmo diante das saídas de recursos que já vinham sendo observadas há alguns meses, grande volume de capital estrangeiro deixou o mercado brasileiro somente na segunda-feira, o que ratifica a posição de investimento de risco que os papéis nacionais representam para o investidor de fora do país.
Quanto aos indicadores econômicos, a crise encobriu quaisquer efeitos que pudessem ser observados em função de resultados bons ou ruins. O Relatório Focus apresentou novas projeções quanto aos índices de inflação, os quais foram novamente reduzidos. O principal indicador, o IPCA, afastou-se 0,01% do teto, sendo revisado para fechamento ao final do ano em 6,26%. Já nos EUA, a produção industrial encerrou o mês de agosto em queda de 1,1%, muito abaixo das projeções de redução de 0,3%.
A terça-feira era aguardada não só pelos efeitos a serem observados em função da crise, mas também pela reunião do Fed e possibilidade de redução da Fed Funds Rate como medida para reduzir as conseqüências da crise. No entanto, apesar do desejo inicial dos investidores, a manutenção da taxa de juros americana no patamar de 2% não trouxe grandes turbulências ao mercado.
De fato, o que movimentou a terça-feira e trouxe certo otimismo aos mercados foi a possibilidade de auxílio direto do Fed à AIG, o que viria a ser anunciado mais tarde. Em troca de 80% do capital da seguradora, o banco central norte-americano realizou um empréstimo de US$ 85 bilhões de dólares que, embora inferiores às necessidades imediatas de US$ 125 bilhões e muito abaixo dos valores de créditos duvidosos a que a companhia se encontra exposta (US$ 400 bilhões), trouxeram certo alívio aos mercados de todo o mundo.
O dia também marcou a divulgação do CPI (índice de inflação ao consumidor dos EUA) de agosto que, ignorado pelo mercado, manteve-se em linha com as perspectivas de queda em 0,1%. Por aqui, os índices de preços também demonstraram arrefecimento, sendo que o IPC-S da semana marcou 0,04%, abaixo dos 0,20% da medição anterior, e o IGP-10 apresentou deflação de 0,42%, também inferior ao aumento de 0,38% do último período.
Em função do apoio do governo norte-americano à AIG - o anúncio foi realizado após o fechamento dos pregões na terça-feira -, as perspectivas para a abertura do mercado na quarta-feira eram bastante promissoras. No entanto, o resultado foi exatamente o oposto. As bolsas de todo o planeta voltaram a cair em nova demonstração de aversão a risco. Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq recuaram, respectivamente, 4,06%, 4,71% e 4,94%. O Ibovespa acompanhou o movimento e desabou 6,74% com um elevado volume de negociação que se aproximou dos R$ 7,5 bilhões, o que veio a dar ainda mais força ao movimento de venda dos ativos. O Risco Brasil chegou a 371 pontos, nível não alcançado há muitos meses. O dólar fechou o dia cotado a R$ 1,8670. A bolsa brasileira alcançava seu menor patamar desde abril de 2007.
Para contribuir com o cenário caótico, alguns indicadores referentes ao mercado imobiliário norte-americano vieram abaixo das projeções. O Housing Starts indicou a existência de 895 mil casas em início de construção no país, abaixo das expectativas que giravam em torno dos 950 mil. O Building Permits, da mesma forma, apontou 854 mil permissões para realização de construções civis, também abaixo das expectativas em 925 mil.
Finalmente, na quinta-feira, o mercado pôde comemorar algumas boas notícias. Todas estritamente relacionadas à ação coordenada do Fed com os Bancos Centrais da Inglaterra, Canadá, Suíça e Japão, a qual teve como objetivo a injeção de US$ 180 bilhões nos mercados financeiros desses países. O resultado foi a retomada generalizada das altas nas bolsas de valores de todo o planeta, tendo o Ibovespa alcançado valorização de 5,48% com volume negociado de R$ 7,43 bilhões.
Seguindo a tendência da semana, o dólar subiu novamente, fechando a quinta-feira a R$ 1,92, maior patamar em um ano. Diante da extrema valorização da moeda norte-americana, o Banco Central do Brasil anunciou no mesmo dia a realização de um leilão de venda de dólares com compromisso de recompra após prazo determinado. A ação tinha como objetivo colocar mais dólares no mercado e, com isso, promover a desvalorização da moeda estrangeira frente ao real. Vale salientar que tais leilões não eram realizados desde 2002, momento de grande instabilidade em função do momento político do Brasil e caracterizado pela cotação do dólar a R$ 4,00.
Em relação aos indicadores do dia, foi divulgada a segunda prévia do IGP-M de setembro, que registrou inflação em 0,04%, 0,16% acima do registrado no mesmo período de agosto. No Brasil, ainda foi divulgada a ata da última reunião do Copom, a qual apresentou grandes preocupações com a elevação da demanda no país e seus efeitos sobre os preços, fatores que justificaram a elevação da taxa Selic em 0,75%. Nos EUA, destaque para os pedidos de auxílio desemprego, que se situaram em 455 mil, acima das estimativas em 440 mil, bem como para o Leading Indicators, compilação de inúmeros indicadores norte-americanos, que apresentou recuo de 0,5%.
Para encerrar a semana com chave de ouro, a sexta-feira foi de grande euforia com as discussões do Fed e do Tesouro norte-americano referentes à criação de uma instituição que viria a adquirir os títulos chamados “podres” das instituições financeiras, ou seja, os direitos dos bancos relacionados a hipotecas de difícil recebimento. Apesar de os valores não terem sido divulgados - neste sábado surgiram rumores de que totalizaria US$ 700 bilhões - o plano trouxe resultados não vistos há anos pelo mercado financeiro internacional - a grande tônica da semana.
A começar pelo Ibovespa, alta de 9,57%, patamar que não era alcançado desde 15 de setembro de 1999, quando a bolsa brasileira obteve valorização de 33% em um único dia. Seguindo o rumo dos países emergentes, o Merval, índice da bolsa de valores argentina, subiu expressivos 10,24%. Até mesmo bolsas menos voláteis alcançaram valorizações próximas dos 10%, como a bolsa de Paris, que subiu 9,27%, a bolsa de Londres, que subiu 8,84% e a bolsa de Frankfurt, com elevação mais modesta de 5,56%.
Voltando ao Brasil, o risco país voltou para o patamar próximo ao do início da semana, na casa dos 278 pontos. Também houve queda do dólar que, em resposta ao anúncio do leilão de venda pelo Banco Central, recuou 4,74% no dia, fechando cotado a R$ 1,83. Saldo da semana? O Ibovespa, que havia fechado a última semana próximo aos 52.400 pontos e chegou a bater na quinta-feira os 45.300, encerrou esta sexta-feira com valorização semanal de 1,27%, a 53.055 pontos.
A grande questão que vale ser destacada nesta semana está relacionada às diferentes posturas adotadas pelo Fed e o governo norte-americano. Da aparente indiferença quanto ao pedido de concordata pelo Lehman Brothers no início da semana, passando pela ajuda de US$ 85 bilhões à AIG, à injeção de mais US$ 180 bilhões junto a outros bancos centrais e finalizando com o desenvolvimento do plano de assunção dos créditos podres das instituições financeiras, podemos chegar a duas conclusões. Ou o Fed encontra-se totalmente sem rumo frente à avalanche de acontecimentos e ameaças ou, por outro lado, possui um mapeamento muito detalhado do cenário atual, o que lhe permite intervir apenas nas situações que realmente levariam o sistema financeiro do país ao caos total. Os próximos meses nos trarão algumas respostas quanto a essas questões.
No que diz respeito à semana que se inicia, as atenções, evidentemente, estarão todas concentradas em novas notícias referentes ao mercado financeiro mundial, bem como em maiores detalhes quanto ao plano de socorro do governo norte-americano. Em relação aos indicadores, de acordo com os próximos acontecimentos, teremos grandes expectativas quanto ao PIB dos EUA no segundo trimestre.
No Brasil, destaque para inúmeros indicadores de inflação, como o IPCA-15, o IPCA-E e o Relatório Trimestral de Inflação.
Abaixo, com informações do portal de notícias InfoMoney, apresentamos a agenda da semana:
SEGUNDA-FEIRA - 22/09
08:30: Relatório Focus: relatório divulgado pelo Banco Central que compila as perspectivas de consultorias e instituições financeiras quanto a inúmeros indicadores da economia nacional. Como nas outras semanas, poderá ser conferido em primeira mão aqui mesmo no blog da ESAG TRADER.
11:00: Balança Comercial (semanal): diferença entre o volume de exportações e importações no Brasil.
TERÇA-FEIRA - 23/09
08:00: Índice de Preços ao Consumidor Semanal - IPC-S (quadrissemanal): mede a variação de preços de uma cesta de itens para famílias com renda mensal de 1 (R$ 415,00) a 33 salários mínimos (R$ 13.695,00) em sete grandes capitais nacionais (São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e Brasília). Considera o período de trinta dias encerrado na semana anterior à sua divulgação.
08:00: Sondagem do Consumidor (Setembro/08): pesquisa realizada com uma amostra de 200 famílias nas sete principais capitais do país. Apresenta algumas expectativas relacionadas a consumo, mercado de trabalho, dentre outros.
10:00: Nota do Setor Externo (Agosto/08): informações apresentadas pelo Banco Central referentes ao Balanço de Pagamentos e reservas internacionais.
QUARTA-FEIRA - 24/09
09:00: Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 - IPCA-15 (Setembro/08): mede a inflação para famílias com rendimentos mensais de 1 (R$ 415,00) a 40 salários-mínimos (R$ 16.600,00) no período compreendido entre o dia 15 do mês de referência e o dia 15 do mês anterior.
09:00: Índice de Preços ao Consumidor Amplo Especial - IPCA-E (Julho, Agosto, Setembro/08): IPCA calculado no período compreendido entre os meses de julho e agosto.
10:00: Nota de Mercado Aberto (Agosto/08): relatório sobre operações de mercado aberto realizadas pelo Banco Central do Brasil.
11:00: Existing Home Sales (Agosto/08): mensuração do número de casas usadas vendidas nos EUA. Importante indicador do setor imobiliário.
11:30: Estoques de Petróleo Norte-Americano (semanal): reflete o consumo de petróleo em território norte-americano.
QUINTA-FEIRA - 25/09
07:00: Índice de Preços ao Consumidor - IPC (quadrissemanal): índice que indica a inflação para o consumidor da cidade de São Paulo que possui renda de 1 (R$ 415,00) a 20 salários mínimos (R$ 8.300,00).
08:30: Relatório Trimestral de Inflação (Setembro/08): relatório emitido pelo Banco Central com informações sobre o desempenho das metas para inflação e perspectivas para o futuro.
09:00: Pesquisa Mensal de Emprego (Agosto/08): documento que apresenta alguns indicadores referentes ao mercado de trabalho nacional no mês de referência.
09:30: Initial Claims (semanal): número de pedidos de auxílio-desemprego nos EUA.
09:30: Durable Good Orders (Agosto/08): indica o número de pedidos e entregas de bens duráveis nos EUA durante o mês de referência. Pode apresentar alguns indícios quanto à evolução da economia norte-americana.
11:00: New Home Sales (Agosto/08): indica o número de casas novas vendidas também nos EUA. Da mesma forma que o Existing Home Sales, permite traçar o atual cenário do setor imobiliário norte-americano.
SEXTA-FEIRA - 26/09
09:30: Produto Interno Bruto dos EUA - PIB (2° trimestre/08): divulgação dos dados do PIB norte-americano e seu deflator. Indicador importantíssimo e que deverá ser observado de perto pelo mercado.
11:00: Michigan Sentiment (Revisado - Setembro/08): mensuração da confiança dos consumidores norte-americanos em relação à economia dos EUA.
Felipe Seitz Bento
Fontes: InfoMoney e Portal de Notícias G1
domingo, 21 de setembro de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário